Entre o Éden e a Cruz:
Entendendo o Tal Plano
Vou precisar chocar vocês… Mas lá vai: Não
fomos criados para proclamar a mensagem de salvação.
Sim, isso soa impactante de início — eu sei.
Lembro que, quando ouvi isso pela primeira
vez na adolescência, só conseguia pensar:
"Será que ninguém vai tirar esse homem lá da frente antes que ele fale
mais absurdos?"
Mas como ninguém tirou o microfone dele, e eu fiquei até o final.
E graças a Deus por isso. Porque o que ele disse em seguida mudou tudo.
Para entender, precisamos voltar lá para o
começo — à criação do homem.
Porque tudo começou com um propósito…
"Então disse Deus: Façamos o homem à
nossa imagem, conforme a nossa semelhança... Criou Deus o homem à sua imagem; à
imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou."
Gênesis 1:26-27
Fomos criados à imagem de Deus.
Refletíamos Seu caráter.
Era algo pleno. Não conhecíamos o medo. Não existia o pecado.
Havia pureza, intimidade e comunhão.
E não para por aí. O profeta Isaías
confirma que também fomos criados para o louvor:
"Esse povo que formei para mim
proclamará o meu louvor."
Isaías 43:21
O salmista também nos lembra do valor que
Deus nos deu:
"[...] Tu o fizeste um pouco menor do
que os anjos e o coroaste de glória e de honra."
Salmos 8:5
Ou seja, o plano original era
relacionamento.
Fomos criados no Éden para andar com o nosso Criador, ouvir Sua voz, viver em
Sua presença.
Mas algo terrível aconteceu...
A Queda
O homem pecou. E com o pecado, perdemos a
comunhão com Deus e o reflexo da Sua imagem em nós se distorceu.
É aí que entra Romanos — o texto clássico para entendermos a separação:
"Pois todos pecaram e estão
destituídos da glória de Deus."
Romanos 3:23
"Portanto, assim como por um só homem
entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim também a morte passou a
todos os homens, porque todos pecaram."
Romanos 5:12
Agora precisamos recontextualizar o que
ouvimos sobre pecado e afastamento de Deus.
Muita gente imagina assim:
O homem pecou, Deus ficou com raiva, se afastou por birra…
Depois se arrependeu, sentiu saudade e resolveu mandar Jesus como um
"plano B".
Mas não é isso.
O afastamento de Deus não foi movido por raiva, e a vinda de Jesus não foi
improviso.
O plano de salvação não começou na cruz,
começou no Éden, com o desejo de Deus por relacionamento.
O
afastamento
Deus
não parou de falar com o homem por birra. Não foi orgulho ferido, nem abandono.
Vamos pensar de outra forma.
Imagine
que você é um adolescente de uma família tradicional. Nunca fez nada imoral. As
meninas? Você observa de longe. Ainda não começou a namorar e, embora a vontade
exista, você sente que ainda não está preparado.
Você
faz parte de um grupo de cinco amigos. Estão no quinto ano, todos mais ou menos
na mesma fase. Só que entre vocês estão Guilherme e Luan. Eles não são
evangélicos, e apesar de estarem no mesmo momento da vida, têm mais contato com
garotas — principalmente porque os irmãos deles vivem indo ao bar ao lado de
casa, onde sempre aparecem algumas meninas. Mas até então, nada demais tinha
acontecido.
Até
que... acontece.
No
dia seguinte na escola, Guilherme e Luan chegam animados, contando que ficaram
com duas meninas. Como amigos curiosos, vocês ouvem os detalhes e até se
empolgam um pouco. Mas depois que o assunto esfria, vocês querem voltar ao papo
de sempre — jogos, filmes, escola. Só que os novos “galãs” não param de falar
de suas conquistas.
E
tem mais: no sétimo ano estudam Caio e Nicolas, garotos mais velhos que já têm
vida sexual ativa, frequentam baladas e festas. Numa dessas noites, Caio e
Nicolas percebem que Guilherme e Luan são amigos do dono do bar. Acham isso
interessante e começam a chamá-los para sair. Os dois aceitam — com animação.
Nos
dias que seguem, os três amigos restantes tentam manter o vínculo. Guilherme e
Luan ainda gostam deles, mas as conversas mudaram. Os assuntos já não se
conectam. Os dois vivem falando de festas que os outros não foram, de
experiências que os outros não viveram. E mesmo sem má intenção, a distância
começa a surgir.
Ainda
há carinho, ainda se chamam para aniversários — por um tempo. Mas com o passar
dos anos, o contato se perde. O laço não foi quebrado por briga, mas por
caminhos que se distanciaram. A vida de um já não combina com a do outro.
E
foi exatamente assim com o homem e Deus.
O plano que não falhou
Deus
não se afastou de Adão por capricho. Mas, assim como Guilherme e Luan quiseram
explorar outras experiências, Adão também desejou viver e sentir coisas além do
que Deus havia proposto. É por isso que dizemos que é o pecado que nos
afasta de Deus — não o contrário.
A
partir daí, veio o distanciamento.
Guilherme
e Luan começaram a viver uma vida cheia de amores passageiros, prazeres e
experiências. Com isso, perderam algo precioso: a pureza e a ingenuidade da
inocência. Da mesma forma, Adão perdeu a comunhão com Deus. E como Deus é
santo, perfeito, e sem nenhum vestígio de pecado, a conexão foi rompida. Fomos
manchados. A imagem de Deus em nós foi corrompida, e o homem passou a nascer em
pecado.
“Portanto, assim como por um só homem entrou o
pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim também a morte passou a todos os
homens, porque todos pecaram.”
— Romanos 5:12
Assim
que Adão e Eva foram expulsos do jardim, não houve crise de identidade. Eles
sabiam de onde vieram, quem os havia criado, e que a culpa da separação era
fruto de suas escolhas. Mas com o passar do tempo… as coisas mudaram.
As
gerações que tinham conhecido a presença de Deus foram morrendo. O
relacionamento direto com o Criador foi se tornando uma lembrança distante. As
histórias ainda eram contadas — sim. Mas pouco a pouco, começaram a soar
como... lendas.
Agora
havia homens e mulheres vivendo na terra sem qualquer relacionamento com Deus.
Gente que nunca tinha ouvido Sua voz, nem sentido Sua presença. E o que
restava? Dúvida. Desorientação. Um vazio.
Essas pessoas começaram a vagar pelo mundo
com perguntas que ecoam até hoje:
"Onde estou? Para onde vou?"
A inquietação se tornou parte da existência humana.
Registros dessa angústia aparecem em
textos muito antigos:
“A
vida que eu desejava não chegou. A morte está diante de mim como um remédio.”
— Diálogo de um homem com sua alma, Egito Antigo (~2000 a.C.)
“Devo morrer também? [...] A morte que
assusta os homens chegou até mim!”
— Epopeia de Gilgamesh, Tábuas XI e XII (~2100 a.C.)
O
ser humano havia perdido o contato com Deus. Assim como Guilherme e Luan
perderam o vínculo com seus antigos amigos, o homem havia se tornado apenas uma
lembrança da amizade que um dia teve com o Criador.
Mas
nem tudo estava perdido.
Ao
contrário de nós, que muitas vezes fazemos planos que nunca se realizam, os
planos de Deus jamais falham. Jó declarou isso com firmeza:
“Bem sei que tudo podes, e nenhum dos teus
planos pode ser frustrado.”
— Jó 42:2
E
se fomos criados para nos relacionar com Deus, então é certo que Ele não
desistiria desse plano. Deus não deixa nada pela metade. Ele começou a se
revelar novamente: por meio de profetas, sacerdotes e pela aliança com Abraão,
um novo propósito começou a ser desenhado.
Um
caminho de volta estava sendo preparado.
Reconhecer
sem Relacionamento
Lá
no começo, não havia dúvidas sobre quem havia criado todas as coisas. Deus era
evidente, presente, íntimo. Mas com o tempo... não havia mais vestígio disso
para muitos. O ser humano precisava acreditar pela fé que Deus é o único
Criador — com base apenas em memórias antigas, repassadas por gerações.
Agora
imagine o seguinte:
Você
se chama Gustavo. É um homem casado, pai de três filhos, e trabalha em uma
grande empresa. Está prestes a tentar fechar um super contrato com outra
corporação. Mas tem um detalhe: seu chefe está em dúvida entre você e o Carlos
— ele tem mais experiência e resultados melhores. Só que o projeto sempre foi
seu.
Para
decidir, o chefe leva os dois para a primeira reunião com o CEO da outra
empresa. Quem se sair melhor, fecha o negócio.
Você
estuda, se prepara, se capacita. Quando entra na sala de reunião... leva um
susto. O CEO é ninguém menos que Luan, seu antigo amigo de infância!
Ele
te cumprimenta com um sorriso caloroso, pergunta pelos seus irmãos, pelos seus
pais, e até pelos amigos da época. Você diz que só tem mantido contato com o
João. Conversam brevemente, por uns cinco minutos, e logo a reunião começa.
Carlos se sai melhor.
De
volta à empresa, você tenta defender sua posição. Diz que tem ótimo
relacionamento com Luan, que eram inseparáveis, que o conhece bem e sabe como
ele pensa — o que seria uma vantagem.
Ninguém
nega que vocês se conhecem. Isso ficou claro. Mas... íntimos? Não
parece.
Todo
mundo naquela sala te conhece há anos. Seu chefe te contratou quando você ainda
era um estagiário solteiro. Eles sabem que Luan não faz parte da sua vida
atual. Você tenta puxar memórias da infância, mostra até fotos antigas de
aniversários. Mas é isso: algo antigo. Fora de contexto.
Foi
exatamente assim entre Deus e a humanidade.
Havia
um vínculo real. Uma amizade verdadeira. Mas o pecado separou os caminhos. E
quando Deus voltou a se manifestar por meio dos profetas, muitos não conseguiam
acreditar. Como assim fomos criados por esse Deus? Como assim Ele é tão
poderoso? Como assim o mundo inteiro veio das Suas mãos?
Os
profetas falavam, anunciavam. Mostravam “provas” — não fotos, mas milagres.
Alguns creram. Outros, não.
Deus
queria restaurar o relacionamento com o ser humano. Mas agora o homem já não
acredita nem mesmo que exista um único Deus. Muitos sequer acreditam que
Deus exista.
Mesmo
assim, Deus continua nos oferecendo liberdade: podemos escolher se queremos nos
relacionar com Ele — ou não.
Mas
Ele também sabia: sem alguma forma concreta de revelar Sua existência, muitos
continuariam sem acreditar.
Foi então que Ele traçou uma nova rota para que Seu plano original — o
relacionamento com o homem — fosse restaurado.
Essa nova rota tem nome: O Plano da
Salvação.
Fomos presos pelo pecado e dominados por
ele. Vivemos em um mundo onde só ouvimos falar de um tal Criador — alguém que
nunca vimos, mas que nossos antepassados juram ter existido. Eles dizem que
esse Criador fez todas as coisas e que, depois que o ser humano se perdeu, Ele
traçou um caminho para nos reencontrarmos com Ele.
Esse caminho tem nome: Jesus.
Agora imagine que você ainda é o Gustavo.
Chegando em casa, você conta todo o seu
dia para sua esposa, inclusive o inesperado reencontro com Luan — aquele amigo
da infância que ela só conhece por fotos antigas, de quando você ainda era um
menino atrás dos brigadeiros nas festinhas.
Enquanto você fala, ela prepara o jantar
e, no meio da conversa, percebe que o molho de tomate acabou. Sem pensar duas
vezes, pede pra você correr até o mercado.
Você vai direto na prateleira dos molhos.
Pega o da marca favorita dela e, nesse exato momento, ouve o barulho das portas
se fechando. Do lado de fora, está acontecendo uma operação policial. Ninguém
pode sair do mercado.
Todos se reúnem perto dos caixas,
impacientes, irritados. Até que, ali na sua frente, uma senhora — por volta de
65 anos — começa a passar mal. Ela fica roxa. Tem problemas respiratórios, e o
susto acelera seus batimentos.
As pessoas ao redor dão palpites, mas nada resolve. A mulher está quase
morrendo.
Então, um homem com roupas simples — tipo
alguém que veio direto da obra — pede espaço. Se aproxima, olha firme para ela
e diz com voz serena:
— Lúcia, volte a respirar.
Você viu tudo. Com seus próprios olhos. A
cor da pele dela voltou ao normal. Ela, que já não respirava, agora está de pé,
tranquila, como se nada tivesse acontecido.
Todos se viram para o homem de calça suja
de cimento. Perguntam como ele fez aquilo. Ele só responde:
— Não foi nada. Mas por favor, não
contem isso pra ninguém.
Como guardar um segredo desses?
As pessoas continuam ali, observando o
homem — agora em silêncio.
Até que outro barulho interrompe o clima: a prateleira de condimentos caiu em
cima da Amanda, uma menininha de 6 anos, que tentou escalar.
O pânico toma conta. Latas pesadas caíram
sobre ela. Quando finalmente a prateleira é retirada, veem cortes no rosto, no
braço e a perna virada de um jeito assustador. O osso estava à mostra.
Um homem bem vestido, dizendo ser médico,
limpa os ferimentos mais leves. Mas avisa: não pode tocar na perna, senão
pode piorar.
A mãe da menina, desesperada, corre até o pedreiro e pergunta se ele pode
ajudar.
Sem hesitar, ele se abaixa, segura a perna
da menina com cuidado e, de forma indolor, coloca o osso no lugar. Ela,
que chorava de dor, silencia.
O corte ainda está ali. Então ele passa as
mãos sobre a ferida. Quando retira, a pele está limpa. Lisa. Sem marca alguma.
Gustavo — você — se senta no chão,
incrédulo. E pergunta:
— Como você fez isso?
O homem olha nos seus olhos e responde:
— Gustavo, meu Pai criou todas as coisas —
inclusive você.
Não se preocupe com o contrato da empresa do Luan. Carlos vai fechar essa
conta. Mas em dois meses, você fechará um negócio ainda maior.
Todos ali souberam, na mesma hora: aquele
homem não era apenas um homem.
Sabiam porque, como seres humanos, conhecemos nossos limites. E ele claramente
não tinha os mesmos.
Ele continuou:
— Se vocês acreditam em mim, então
acreditam no meu Pai. Foi Ele quem me enviou.
Eu não faço nada sem a aprovação dEle.
Tudo isso aqui é passageiro.
Vivam como quem pertence a Deus. O Pai levará para perto de si todos que
quiserem se relacionar com Ele. Mas é preciso confessar com a boca e com a vida
que vocês acreditam no Deus vivo — e vivem para Ele.
Agora as portas do mercado serão abertas.
Vocês me viram. Vocês viram o que o Pai pode fazer.
Agora têm a missão de contar tudo que ouviram e presenciaram — para que todos
tenham a chance de voltar ao Pai.
No tumulto da chegada da polícia, todos
desviaram os olhos por um segundo.
Quando voltaram a olhar, o pedreiro já não estava mais lá.
Todos voltaram para suas casas contando o
que aconteceu.
Gustavo também.
Sua esposa não viu nada. Mas como confiava no que ele dizia, acreditou — e a fé
dela logo se encheu de milagres que só poderiam ter vindo de Deus.
Agora, Deus fazia parte da vida deles.
E eles contavam a todos: precisamos voltar a viver com Deus.
Tudo aqui é passageiro. E o Pai virá buscar todos que quiserem se relacionar
com Ele.
Porque o plano, desde o início, sempre foi
esse:
Fomos criados para Cristo.
Neste mundo, longe dEle, nada faz sentido.
E você? Já falou de Cristo hoje?
Natália Vilar

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