A ardência e a vibração causadas pelo sopapo que deu na mesa, enquanto proferia aos gritos a palavra "inadmissível", estavam cobrando sua conta. Entretanto, não se intimidou. Lembrou-se de ter vencido obstáculos duríssimos — que, em sua avaliação, nenhum outro homem havia enfrentado —, tudo isso para docilizar a arrogante, a indomada, que agora ele podia chamar de sua.
Recordou a época em que havia acabado de passar no concílio. Estava vibrante, quando o pastor-presidente veio com a proposta: acompanhar uma recém-convertida. Enganou-se ao pensar que se tratava de uma mulher qualquer. A louca era do grupo de ativista feroz da cidade. Ela era a graça de Deus materializada em forma de gente — uma prova viva de que só alcançamos a Cristo por meio da graça, e não por mérito.
As primeiras palavras proferidas por ela foram:
— Não posso, de maneira alguma, ser vinculada a uma instituição arcaica, que classifica pessoas como cães. Aqueles que têm raça, portanto, ganharão o mundo; os outros, vira-latas, estão fadados à sarjeta. E tem mais: não me submeterei a um homem impondo suas vontades, usando dogmas para gozar de impunidade. Um deus machista que odeia as mulheres e só as fez para distrair os machos alfa de sua espécie? Muito menos! Não vou baixar minha cabeça para você, pois sei que, sendo pastor, está sentado confortavelmente no pau mais alto do galinheiro, comandando tudo de cima. Tenho minhas bandeiras — e não pretendo abrir mão delas.
Sim, seus quatro anos de dedicação infindáveis em Teologia o prepararam para ter uma boa resposta, porém a imagem daquela alucinada o bloqueou.
Esperava uma mulher com calças largas, casaco de moletom, cabelo curto ou espetado e, claro, esperava a ausência de sutiã. Mas não. Ela tinha que divergir sempre, até em seu modelo imaginário de uma típica contestadora. Usando um vestido lindo, com sutiã, salto fino, bolsa e batom, ela sentou-se bem à sua frente.
A divergência estendia-se também às suas atitudes em relação aos homens. Por proferir palavras ferozes contra os tais machos, não conseguia acreditar naquela mulher se envolvendo intimamente com alguém. Sua surpresa se redobrou quando soube de mais envolvimentos íntimos do que gostaria de imaginar. Preferiu suprimir essa lembrança para preservar não a ela, mas a si mesmo. Ela dizia que usava os homens a seu bel-prazer, assim como, segundo ela, eles faziam com as mulheres.
Após ouvir toda sorte de injúrias contra a Palavra dada pelo Altíssimo, precisou de todo o seu bom senso para não interrompê-la. Exortando com amor, explicou que Deus não trata as mulheres de forma inferior em nenhum momento. Em Sua Palavra, nunca encontramos Deus desqualificando uma mulher. Mesmo no texto polêmico de 1 Coríntios 14, existe um contexto a ser exposto com muito cuidado e amor.
Deus criou o homem e a mulher e deu a mesma importância aos dois. Porém, cada um tem funções diferentes. Ambos são filhos; as atribuições é que os diferem, mas o amor e o cuidado são os mesmos.
Não podemos negar o patriarcado imponente em toda nossa história. Contudo, é só folhear as Escrituras que encontraremos, com folga, o papel magistral das mulheres no Reino de Deus.
Abraão, o grande patriarca, mesmo tendo a ordem de Deus, ouviu sua mulher. Não consigo imaginar um homem cruel e desrespeitoso mudando a rota dos seus planos por uma mulher. Explicou que, se fosse do jeito que ela pensava, Sara jamais teria tido voz ativa.
Continuou exemplificando. No ministério de Jesus, as mulheres estavam envolvidas diretamente! Inclusive Marta desabafa: se Jesus tivesse chegado antes, seu irmão não teria morrido. Jesus levou um tempo a mais para ir até Lázaro, e ela não se calou. Sem medo, reclamou com o próprio Mestre dos mestres.
E não podemos esquecer de Débora, uma juíza que ouvia os questionamentos do povo e aconselhava. E o que dizer de Jael, uma mulher anônima que livrou o povo de Sísera? As protagonistas da história do grande Moisés são mulheres: Joquebede, Miriã e a filha de Faraó.
Com a voz mais calma, olhando em seus olhos grandes e lindos, começou a ministrar. Deixou claro que o homem faz crueldades, classifica e desqualifica as pessoas. Deus, não! Você pode lutar por tudo o que for justo e digno, pois isso agrada ao coração de Deus. E, com a certeza de que, se seguirmos a Palavra de Deus, não precisaríamos levantar nenhuma bandeira para defender direitos dos mais fracos, pois Cristo trata a todos com amor, misericórdia e dignidade. Cristo une todas as causas, e a nossa bandeira é superior a todas: foi lavada com o sangue de um Cordeiro imaculado.
Ainda imerso nas lembranças, lembrou-se de o amor florescer entre os duelos. Faziam uma esgrima intelectual a cada encontro. Algumas vezes saía humilhado, mas, quando pegava a espada de dois gumes, a ativista feroz se rendia. A alegria dominou seu coração ao lembrar-se de que ele mesmo havia batizado-a.
Demorou mais do que a média para ensinar a esposa sobre submissão a Deus. Explicar que ser submissa ao marido não é ser escrava, nem uma forma de punição. Hoje fala com alegria e orgulho que sua esposa foi transformada por Cristo, e que juntos têm um ministério.
Mas um suspiro de insatisfação o trouxe ao tempo presente. Pensou ser ele a voz ativa em sua casa. Não seriam aquelas duas molecas cheirando a cueiro, com a destemperança de pensamentos herdados da mãe, que o dobrariam.
Endureceu a voz novamente e ordenou com firmeza:
— É inadmissível essa discussão. Eu comprei os vestidos da Cinderela e da Branca de Neve, então são eles que vocês vão usar!
Deu a ordem de forma imponente. Afinal, já havia dobrado a ativista feroz-mor. Agora estava no impasse com aquelas miniaturas idênticas de mulher que estavam neste mundo havia apenas sete anos e que acreditavam saber de tudo. Não, elas não lhe roubariam a sensatez.
— Mas, papai, não quero ser a Cinderela. Não me vejo baixando a cabeça para uma madrasta malvada que, por ter minha tutela, irá me humilhar. Eu lutaria por meus direitos e a expulsaria de minha casa. Afinal, a casa é minha herança, não dela. Contadinha, se não me tratasse com respeito, quando chegasse a idade de requerer meus direitos, eu a deixaria sem nada. Por isso, papai, estou vestida de Maria Quitéria. Ela é a Mulan brasileira! Viu que os inimigos estavam querendo tomar o Brasil, vestiu-se de homem e foi para a guerra lutar pelo nosso país.
— E eu não quero ser a Branca de Neve. Não quero ser um cadáver jogado na mata esperando um maluco. Fala sério, papai: quem olha uma defunta no meio de uma floresta e sente desejo de beijá-la? Esse homem, no mínimo, é louco! Quero ser Joana d’Arc, uma heroína que não se rendeu. Ela lutou até o fim. Papai, ela é o máximo!
— Basta!
Tomado pela fúria, limpou a garganta, estreitou os olhos de forma empoderada, mirou as fedelhas à sua frente e fez a única coisa capaz de acabar com aquela confusão. Gritou com toda a força:
— Amor, me ajuda aqui!
Natália Vilar
Texto de autoria de Natália Vilar Melo – proibida a reprodução sem autorização.

Nossa que texto incrível!
ResponderExcluirUau finalizou com dignidade os temas polêmicos empoderando as mulheres. As meninas são um espetáculo à parte.
ResponderExcluirAmei! A narrativa me prendeu do início ao fim! Excelente! 👏
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