As mãos não param de tagarelar, a alegria é total, os intérpretes estão animados e atentos — hoje o culto será conduzido por eles. Isso mesmo: são os surdos e os intérpretes que vão guiar a igreja em adoração ao Senhor nosso Deus.
O relógio vai passando, a membresia vai chegando, e sempre tem aquele irmão desavisado, sem entender por que tem um surdo na recepção da igreja. Ou por que todos estão usando camisas com aquelas mãozinhas desenhadas.
A esposa, baixinho, explica: é o Dia do Surdo. Foi anunciado no domingo passado. Houve atividades na igreja a semana inteira, e hoje é o culto de encerramento.
Outros vão se achegando e procurando seus assentos favoritos — quase que marcados como na turma do jardim de infância. Aí daquele que ousar sentar no meu lugar! Para garantir, marco com minha Bíblia. E, para reservar o lugar de quem ainda não chegou, uso até a Bíblia do vizinho.
Tudo está pronto. O dirigente do culto é surdo. E, dessa vez, os ouvintes é que estão na posição inversa: veem o surdo, mas só ouvem o intérprete, sentado com o microfone na primeira fileira.
Logo, a irmã líder do ministério é puxada pelo braço por um dos fundadores da igreja. Ele pergunta, um pouco irritado, se o culto será inteiro assim. Ela, sorridente, responde que sim. Ele volta para o seu lugar. Nunca saberemos se estava irritado ou não.
Louvores, peças, jograis... tudo, absolutamente tudo, com atuação dos surdos. Até que o pastor começa a pregar e diz:
— Olhem para eles, os surdos... Eles tinham tudo para desistir, e estão aqui, firmes, trabalhando!
O marido e a esposa — ambos surdos — trocam olhares daqueles que dizem tudo sem uma palavra. O discurso, apesar da intenção, é um exemplo clássico de capacitismo.
O que é capacitismo?
Capacitismo é uma forma de preconceito sutil, muitas vezes velado. Às vezes, nem percebemos que estamos sendo capacitistas — mas quem é pessoa com deficiência sente, e sente fundo.
É a ideia de que pessoas sem deficiência são o modelo perfeito. E, por consequência, quem tem alguma deficiência é tratado como “coitadinho”, “tadinho”, “anormal”. Mesmo quando o tom parece elogioso, pode criar uma barreira entre o “normal” e o “deficiente exemplar”.
📌 Pense assim:
Você está reconhecendo o trabalho daquela pessoa — ou a comparando com alguém considerado “normal”?
Vamos voltar ao culto e observar algumas falas que parecem elogios, mas na verdade escondem comparações injustas:
Ex. 1:
“Veja o irmão: dirigiu o culto mesmo sem falar nada! Agora você, que é perfeito, não faz isso.”
Ex. 2:
“Deus te deu uma voz linda e você não louva. E hoje, os surdos — que teriam toda desculpa para não fazer — estão adorando!”
Ex. 3:
“Olhem para eles... Se eu estivesse na situação deles, não sairia nem da cama. Vê-los me faz levantar e trabalhar.”
Percebe? Não houve elogio real ao trabalho — houve comparação com um padrão dito “normal”.
E se trocarmos o exemplo?
Ex. 1:
“Veja o irmão: dirigiu o culto mesmo sendo negro. Agora você, que é branco, não faz isso.”
Ex. 2:
“Homens, Deus te deu uma voz linda, mas você não louva. E hoje vimos uma mulher adorando.”
Se você torceu o nariz ou ficou desconfortável, entendeu o ponto. 👏
Mas... não podemos nem elogiar?
Pode sim! Mas elogie o que a pessoa fez — não o que ela “superou” para fazer.
🗣️ Diga:
“Irmão, sentimos a presença de Deus na condução do culto. Que o Senhor continue te abençoando.”
🎶 Diga:
“Que louvor maravilhoso. Vamos continuar adorando nosso Deus com a próxima canção.”
🔥 Diga:
“Todos temos um chamado. Não deixemos que a preguiça ou a rotina nos impeçam de cumprir!”
Essas simples trocas fazem total diferença. No Dia do Surdo, da Mulher, do Negro ou de qualquer outra data, elogie com dignidade.
Lembre-se de Êxodo 4:11:
“Disse-lhe o Senhor: Quem fez a boca do homem? Ou quem faz o mudo, ou o surdo, ou o que vê, ou o cego? Não sou eu, o Senhor?”
Todos somos instrumentos nas mãos do Senhor — com ou sem deficiência. O que importa é o coração que O adora em espírito e em verdade.
Você já presenciou alguma situação semelhante? Como você entende o elogio respeitoso na igreja? Vamos conversar nos comentários!
Natália Vilar
Texto de autoria de Natália Vilar Melo – proibida a reprodução sem autorização.

Gente, eu sou capacitista e não sabia.
ResponderExcluirPerfeito! O capacitismo precisa ser abordado assim, com exemplos, precisamos reaprender a agir baseado em ações genuínas não em achismos
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